Saturday, October 31, 2009

entardecer no verão

São outros azuis e lilases,
diversas luzes e olores.
Como se a estação nos propiciasse sentimentos resguardados ao longo do inverno.
Verão pra reinvenção.
Noite clara e céu aberto.
Vida que vem cheia de tempo e sem qualquer história.

Wednesday, October 28, 2009

série personagens urbanos (introdução)

Há situações em que me vejo imerso em cenas de cinema vivo e real. De repente estou ali, bem diante de um personagem rico em bagagem de ações e gestos característicos que remontam para bastante aquém de nosso tempo. Pessoas e funções muito dignas e interessantes. Verdadeiros repositórios individuais que - cada qual à sua maneira - recriam uma tradição urbana sempre em xeque. Garçons, pipoqueiros, lixeiros, certo tipo de porteiro, afiadores de faca, sapateiros, engraxates, carteiros... Algumas dessas atividades já estão seriamente ameaçadas de extinção. Alguém, por exemplo e acaso, tem visto os bilheteiros quando vai ao cinema? Ora bolas. Não vale exercer o ofício por si só. Tem que "vestir a camiseta" pra honrar a profissão. Garçons por aí há aos magotes, poucos porém merecem a alcunha. Mas deixemos essas discussões para os próximos capítulos...
Queremos, ao inaugurar a série, falar um pouquinho mais de perto sobre essas figuras que desde criança nos convidam a ver a cidade como lugar aberto ao intrigante e ao inusitado. Até mesmo quando o fabuloso se disfarça no que há de mais simples e corriqueiro possível - e, diga-se de passagem, na maior parte das vezes é assim.
A cidade, pois, como palco para a vida interessante acontecer.
PS: quem tiver sugestões não se deixe vencer pela preguiça ou timidez!

Monday, October 19, 2009

Passarela


Muito caminhei por esta passarela... Sozinho e acompanhado. Voltando do colégio, com a mochila pesada sobre as costas e sob o calor do meio-dia, que mesmo no alto inverno, por causa do agasalho reforçado para o cedo gélido da manhã, nos fazia suar.
Por ela me recordo de caminhar conversando animadamente com tantas pessoas... O Antônio Augusto e seus colegas da oitava série do Uruguai (enquanto eu ainda estava na terceira...), o Martin, Gustavo, Alexandre, Lúcia, Ana Carolina, Jupob, Paulo Marcelo, José Ricardo... Depois, já do segundo-grau em diante, atravessei com mais outras tantas companhias de gratas lembranças.
Mesmo hoje em dia, quando viajo de volta a Porto Alegre, ainda que fique apenas o tempo ligeiro de um final de semana, é rara a vez em que esqueço de lá passar e, pensativo, por ela me demorar.
Foto de Antônio Augusto

Sunday, October 18, 2009

cinema contemporâneo

Moro em Florianópolis e desde quando vim para cá, em 2002, precisei me conformar a uma cidade bem menos sortida no que diz respeito a ofertas de salas de cinema do que Porto Alegre. Claro que mesmo antes disso a hegemonia dos "caixotes" de shopping centers já era praticamente absoluta. E o meu hábito de ir ao cinema, costume que exerço de modo mais ou menos frequente desde quando era levado pelo meu pai a partir dos cinco anos de idade, já vinha testemunhando diversos ciclos. Todos eles, no entanto, têm apontado para um único e aparentemente contraditório sentido: a um só tempo, portanto, elitiza-se e pauperiza-se um entretenimento tipicamente popular.

Ocorre que nesses últimos sete ou oito anos a situação apenas fez piorar - tanto cá quanto lá; só que aqui o cenário nunca foi abonador. Os ingressos ficaram muito mais caros (R$16,00!), e a qualidade da programação, embora o número de "caixotes" (nomeados injustamente de "salas") tenha aumentado, se reduziu a uma faixa de títulos em que pancadarias, explosões, roteiros apelativos, previsíveis, repetitivos e outras bestialidades garantem a rigorosa margem de lucro exigida por aqueles poucos que controlam o mercado de distribuição e exibição cinematográfica. Além disso, quando o filme é bom - podemos ter a prévia certeza -, ficará um tempo demasiado insuficiente em cartaz.

Como atualmente o CIC (espaço cultural da cidade aonde costumávamos ir para experimentarmos a sensação de cinema) está fechado para reformas por tempo indeterminado, não nos resta outra atitude senão a de tolerar os "Multiplex" da vida...
Pois ontem, aceitando o convite de um amigo que há algum tempo não via, fui até o "tijolão do mangue" assistir ao último filme do Tarantino. E daí, após o tempo da fila limitada por aqueles cercadinhos que se parecem com os joguinhos de labirinto que fazíamos quando crianças, e, logo mais, ser instado a "escolher" de antemão a fila e o número de minha poltrona, tive que aguentar quinze minutos de trailers, os quais, na verdade, eram propagandas semelhantes às que presenciamos na televisão.
Em meio aos anúncios das "nonagésimas" continuações de um filme americano repulsivo qualquer, ainda somos persuadidos a comprar a revistinha em que aparecem fotos e textos alusivos aos atores da película!!
Se ainda levarmos em consideração o fato segundo o qual invariavelmente haverá pessoas sem educação e despidas de paciência sentadas perto de você, falando, vendo as horas, ou escrevendo mensagens no celular, só podemos recomendar a nós próprios pensar mil vezes antes de decidir fazer um programa como esse.
Como ainda não cheguei ao fim, devo dizer que grande parte das projeções hoje disponíveis nos cinemas não provêm mais de rolos, mas de meras cópias digitais com qualidade de DVD - os mesmos que alugamos ou compramos para ver em casa!
Ou seja, pagamos caro para consumirmos bens culturais de qualidade pra lá de duvidosa.
E o filme? "Bastardos Inglórios", embora plasticamente bem construído, e cheio de diálogos cômicos e articulados, reflete para mim essa mesma atitude cínica diante do mundo que tanta gente adota pensando, logo adiante, em um maior sucesso de bilheteria.

Wednesday, October 07, 2009

efeitos de um temporal


Segunda-feira, anteontem, foi daqueles dias em que a natureza mostra as suas garras para o homem. O Antônio Augusto ao caminhar de tardezinha pela Duque de Caxias, flagrou a queda de uma árvore em tempo real (veja a foto) para logo depois ouvir os comentários assustados das pessoas que cruzavam seu caminho: "Nunca tinha visto um temporal como este!".

Eu, de minha parte, embora more numa ilha com maior propensão a ciclones extratropicais e outros perigosos fenômenos metereológicos do gênero, apenas dormi mais sossegado com o barulhinho gostoso da chuva que atrás de si deixara um rastro de temor e destruição.

Sunday, October 04, 2009

universo brasileiro

Existem pessoas que viajam e pessoas que permanecem. Sempre foi assim, embora hoje em dia haja uma espécie de consenso segundo o qual a vida estaria sempre aonde nós ainda não chegamos. Gosto muito da curiosidade geográfica e cultural e quero muito viajar e viver por aí. Mas ao atentarmos a outras maneiras, tão interessantes quanto, de se fazer a vida, poderíamos tranquilamente dizer que não é preciso sair do Brasil para se conhecer o mundo. E se fôssemos por acaso gregos, mexicanos ou argelinos, o mesmo haveria de ser válido.

Wednesday, September 30, 2009

Latitudes

O Brasil é mais sorridente e simpático acima do trópico de capricórnio.

Tuesday, September 22, 2009

Centro noturno


Até bem pouco tempo atrás, o Centro de Porto Alegre era um lugar amedrontador para os homens que caminham - essa espécie ameaçadíssima de extinção. Lembro-me de voltar da Casa de Cultura com aquela sensação de alívio logo após cruzar a Praça Dom Feliciano e a Santa Casa. Assim, pensava ingenuamente eu, ao vencer a fronteira a divisar o Centro e a Independência, ingressava em bairro mais seguro e por mim conhecido.

Infelizmente, nos dias correntes, por essas ironias e reviravoltas da história recente, a Independência, junto com o Bom Fim e Moinhos de Vento, viraram localidades onde a classe média se vê cada mais acuada diante da escalada da criminalidade urbana e o paralelo desmantelamento da segurança pública. Por outro lado, o Centro tornou-se um dos últimos recantos onde ainda se pode perceber, sem muito receio, um pouco da antiga e boa alma porto-alegrense.

Mas como poderia ser diferente se os espaços públicos da nossa cidade estão cada vez mais às moscas? O trajeto típico do homem medianamente burguês pode ser resumido na previsível equação: casa-carro-trabalho-carro-shopping-carro-casa. Além disso temos os condomínios fechados e os restaurantes supostamente refinados com leões-de-chácara na porta para assegurar que ABSOLUTAMENTE NADA sairá do espectro da previsibilidade e da total falta de imaginação.

Vamos mudar de assunto e passear no Centro?


Rua da Praia
Foto de Antônio Augusto

Sunday, September 13, 2009

águas de setembro


A semana que passou deu início a mais uma temporada de chuvas no sul e sudeste brasileiro...
Soluções viáveis à vista para solos cada vez mais impermeabilizados, assoreamentos, deslizamentos e delinquências predatórias em geral?
Parque Farroupilha, 12 de setembro, Porto Alegre.
Foto de Antônio Augusto.

Tuesday, September 08, 2009

Sobre o fantasioso e certos fascismos


Há cerca de dois meses os malabaristas de Florianópolis foram impedidos pela Prefeitura de fazer do tráfego das vias da cidade um lugar menos duro e chão.
São práticas fascistas como esta que nos relegam ao estatuto de meros sobreviventes trancafiados a papéis sociais tão-somente reprodutores, sem espaço possível de qualquer respiro pra imaginação. O grande perigo dos artistas de rua - devem pensar os tecnocratas de plantão - estaria justamente no fato de nos distrair e, ao menos temporariamente, nos distanciar dessa postura repetitiva e maquinal tão típica das cidades de hoje onde o simples ato de descansar no banco da praça é visto como coisa pra aposentado ou vagabundo.

Pois, pra contrastar um pouco tamanha perversidade travestida de "marco regulatório", uma imagem do feérico colorido do homem das pernas de pau, admirado pela criança, no centro de Porto Alegre.

Foto (e sugestão para a postagem) de Antônio Augusto.

Saturday, August 29, 2009

desarmonias especulares


Hoje em dia edifício espelhado é fundamental, não é mesmo? "Melhor" do que isso só palmeira transplantada pra ornamentar empreendimento que quer entrar "rachando" no mercado.

Avenida Independência, Porto Alegre.

Foto de Antônio Augusto.

Tuesday, July 28, 2009

os extravios da cidade

Eu quero saber daquele pedaço da cidade onde a vida ainda rebenta,
dentro e ao redor do qual os pobres de espírito sequer passam perto
(pois temem que todas as moléstias e extravios nasçam ali).

Wednesday, July 08, 2009

Convite

Vamos sair de casa e conversar enquanto interagimos com a paisagem?
Esqueçamos o resto que porventura seja triste - o mundo continua aí.
E nós continuamos vivos.

Wednesday, June 24, 2009

Sorveteria Jóia


Sorveteria Jóia, esquina da República com a José do Patrocínio - e, graças a Zeus, ainda na contramão do tempo!
Cidade Baixa, Porto Alegre.
Foto de Antônio Augusto.

Friday, June 12, 2009

Edifício Independência


























Edifíco Independência. Avenida Independência, número 831. Bairro Independência. Porto Alegre.
Construído no final dos anos quarenta do século passado, desponta como um dos primeiros "arranha-céus" de nossa cidade.
Nasci e vivi a maior parte de minha vida lá. Terceiro andar. Apartamento 33, que dava para os fundos em relação à avenida, e que até os meus 12 ou 13 anos de idade - antes que o espigão à esquerda na fotografia fosse contruído - ainda oferecia uma bela e quase irrestrita vista da parte sul da cidade, com direito a uma generosa nesga, de viés, do Guaíba. Além da companhia bastante próxima, à oeste, de duas árvores - não apenas bastante frondosas como sempre receptivas aos assobios dos bem-te-vis, entre outros pássaros urbanos-, localizadas, com um terreno de intervalo, no pátio de uma escola estadual transformada hoje em austera sede do IPHAN, as quais enchiam nossas manhãs de dias feriados de uma alegria e otimismo intransitivos.
Em um momento oportuno, nós, autores deste blog, certamente ainda escreveremos um relato a respeito das diversas histórias surgidas ou de algum modo vinculadas a este prédio peculiar. São tantas dramaturgias reais, sentidas e imaginadas que não poderiam caber, agora, neste lugar.
Por enquanto fica o registro através da atmosfera atual do edifício encapsulada pela lente da máquina fotográfica do Antônio Augusto.
Mas muito em breve - oxalá - ainda teremos muito a falar sobre este que é, se nos for permitido o paralelo simbólico, uma espécie de Dakota porto-alegrense.

Tuesday, April 28, 2009

O inferno são os outros

A frase acima, supostamente enunciada por Sartre, ainda é uma das melhores pra descrever a perplexidade perante a sensação de pesadelo cada vez mais frequente no convívio humano.

Triste falar sobre isso num espaço que modestamente se propõe a chamar a atenção frente às pequenas coisas belas ainda capazes de serem encontradas no mundo moderno e urbano.

Entretanto, mesmo que este escrevinhador não tenha de todo abdicado de certas esperanças e singelos prazeres, é incapaz de evitar o abatimento diante de um mundo social cada vez mais grosseiro e hostil.

Não são só os assaltos e crimes que aumentam vertiginosamente enquanto a segurança pública faz vista grossa para não precisar admitir que a sua função nunca foi garantir a paz coletiva, mas simplesmente impor ostensivamente o poder institucionalizado.
Antes do aumento da criminalidade está a perda evidente da capacidade das pessoas em estabelecer entre si a mínima cordialidade. Saímos de casa e ao dirigirmos nossos carros somos alvo da impaciência estúpida das buzinas histéricas e apressadas. Caminhamos em calçadas esburacadas em meio a uma multidão acéfala orientada como autômatos por mandamentos da mais prosaica racionalidade.
Mas se engana quem julgar que acéfalos são apenas os indíviduos pertencentes à massa ignara. Piores são os pequenos burgueses, educados em finos colégios e boas universidades, os quais, na hora de pesarem as conveniências, jogam todo o verniz civilizatório para o alto, em troca de mais alguns trocados.
Respeito pra muita gente já virou prática morta. Poucos são os que ainda sorriem por simpatia desinteressada. Vivemos sob a égide da seguinte ética: cada um há de se AFIRMAR FRENTE AO OUTRO para garantir o seu quinhão. Encantamento e contemplação, então, são puras e inúteis bobagens. Será?

Saturday, March 28, 2009

Há dez carnavais, no Rio


Foto: Gilfredo Maulin




Estive apenas uma vez no Rio de Janeiro. Foi exatamente há dez carnavais: naquele 1999 februário.

Acompanhado de meu amigo Torelly, minha postura frente a esta cidade foi de imediata estupefação - em todos os seus mais devotos e medrosos sentidos, diga-se passageiramente. Mas mesmo o temor do guri vindo de metrópole sulista e provinciana foi talvez o menos importante dentre uma série de sentimentos muito mais leves e estimulantes.

Havia riquezas humanas inéditas em cada estranheza ou familiaridade diante de mim projetadas. Odores a exalar por todos os poros a paisagem ancestral e grandiloquente. O Rio era então promessa contínua de novas brasilidades, outros olhares e possíveis diversos passados de uma mesma identidade minha. Não importa se já estava a cidade decadente. Afinal, decadência pertence já à nossa tardia sensibilidade.
Olhava ao redor e decerto intuía: quantas outras, no mundo, como o Rio de Janeiro, possuiriam esta sintonia repleta de significados pairando irresolutos entre a geografia e a interferência humana? Ao que eu saiba e soubesse, nenhuma capital europeia; ou, ao menos, do mundo supostamente desenvolvido, com certeza.
Anos a fio assistindo novelas das oito peculiares pelo seu poder de vulgarização das paisagens e tipos humanos cariocas e mesmo assim houve surpresa sincera. A antiga capital brasileira é daquelas cidades que se devem ver e viver de perto. Cartões postais e enquadramentos clássicos não dizem a metade da história. Assim como o seu conhecido que mora no Rio não deve ser levado muito a sério em seus comentários. Mistificação e frases prontas abundam quando o assunto é o nosso personagem urbano dessa postagem.
Ladeiras fétidas e estreitas, bonde ainda vivo, prédios modernos das décadas de trinta e quarenta. Padarias matinais em Copacabana e bancas de revista na Tijuca de meu amigo Gil. Espaços vivamente promíscuos. Chope gelado nos botecos botafoguenses por onde meu pai certamente passou em 64. Continuo flanando sempre, desde aquele 99, pelas ruas daquela cartografia perigosa e convidativa.
O Rio faz parte da minha cabeça. Sem críticas corrosivas ou elogios deslumbrados. Simplesmente, o lugar como ideia e sentimento.



Wednesday, February 18, 2009

outras tardes na cidade

Foto de Antônio Augusto Bueno



Cidade é mundo feito maquete vista aos olhos da janela aérea.
Mas ali em seus ínfimos recantos há qualquer mundo ainda mais estimulante do que qualquer paisagem de sobrevoo.
Sombras arbóreas, fios de calçada, vermelhos de sinaleiras piscantes: tudo aqui simboliza e, imensamente, guarda vidas cheias de muitas outras mais.
Cidades escondidas em pátios vespertinos repletos de impressões.
Calçadas amarelecidas pela idade da foto.
Caminhos repisados e ainda não devidamente concebidos em todas as suas diversas possibilidades.
Horários ignorados em nome do prazer sem culpa, da tarde sem nenhuma necessária explicação.
Edifícios antigos debaixo dos quais as nuvens mirava enquanto o dia morria.
A noite enfim chegava.
Cidade tranquila aos sentidos infantis.
Outras tantas paisagens haveriam de vir por aí.




Monday, January 05, 2009

Andar por aí em 2009

Neste ano vou andar por aí:
ruas,
avenidas,
calçadas,
canteiros,
calçadões,
lombas e ladeiras,
paralelepípedos (de preferência),
asfaltos (inevitavelmente),
praças,
parques,
bosques,
matas,
orlas,
morros,
casas,
árvores,
quintais,
apartamentos,
alamedas,
becos,
servidões,
mirantes,
museus,
escadarias,
livrarias,
sebos,
cinemas,
igrejas,
bibliotecas,
elevadores,
salas de aula,
corredores,
oficinas,
cozinhas,
salas de estar,
restaurantes,
botecos (de verdade),
banheiros (públicos e caseiros),
céus crepusculares,
anos passados,
espaço feito de tempo e gente,
vida sem prévia demarcação.

Wednesday, December 17, 2008

Montevidéu moderna

Estivemos em Montevidéu nas primeiras jornadas deste 2008 já moribundo. Foram cinco dias nossos por lá, antes de irmos em direção a Buenos Aires, numa rota turística, hoje, bastante desconsiderada. Tal opção dominante, aliás, se faz compreensível. Afinal, perante os olhos dos consumidores brasileiros não haveria nada para usufruir de diferente e barato na capital uruguaia.
E se por acaso houvesse, os shoppings da Recoleta e as ofertas da Florida buenairense se encontram logo ali, atravessando o rio, a "compensar" qualquer barganha. Butiques, restaurantes, museus, patrimônio arquitetônico, parques e monumentos existiriam em maior e melhor escala (e preço) do outro lado do Rio da Prata. Toda a área oriental da bacia platina, enfim, estaria envolta por uma bruma aparentemente indissipável de atraso e decadência.
Para nosso constante pesar, em tempos de verdades globalizadas, o senso comum vaticina e a mediocridade nos governa. Face à ausência de imaginação e curiosidade, Montevidéu sem dúvida possui um ar arcaico que deve soar depressivo às sensibilidades atreladas ao eterno "novo em folha" (neste sentido, é significativa a predominância de carros antigos - e pequeninos - pelas avenidas largas e fluidas da cidade). E, embora Buenos Aires não seja propriamente um lugar adornado por tintas de pujante e fresca novidade, é por óbvio maior e mais frenética; tendo adquirido – graças, diga-se também, ao auxílio da velha astúcia portenha – os ardis desta cosmética rejuvenescedora hoje tão em voga, capaz de mesmerizar as mentes e bolsos da burguesia global afluente – e que isto não desmereça, em qualquer sentido, o belo exemplo de reinvenção urbanística promovido em Porto Madero.
Mas basta, ao menos por enquanto, de ressentimentos. Mais estimulante é andar por esta cidade – e para tanto, tanto faz se naquele preciso janeiro ou repetidas vezes em meu sonho desperto – e contemplar suas formas de um modesto e permanente encanto.
Para início de conversa, preciso dizer que esta cidade sempre provocou minha imaginação geográfica de criança acostumada com mapa-múndi afixado na parede do quarto. Lembro-me, desde épocas minhas mais remotas, de ouvir comentários comparando Montevidéu a Porto Alegre em vários e vagos aspectos.
Independentemente do comum cacoete de nossa parte em enxergar o mundo apenas a partir do próprio reflexo, são inegáveis certas parecenças. As duas se expandem em seus centros peninsulares sobre vastos estuários. E ali, no coração dessas urbes há um desenho de ruas muito semelhante de paralelas e transversais ladeadas por determinadas casas antigas cuja atmosfera remete-nos de imediato a vidas pregressas em relação às quais às vezes nos perguntamos se nós, quem sabe, por acaso do destino, não as já teríamos de algum modo freqüentado.
Outro elemento significativo deste paralelo, é o processo de modernização e transformação que ambas as cidades vêm sofrendo nesses últimos anos. Mas aqui as diferenças se tornam evidentes. Enquanto em Porto Alegre - também por peculiaridades de sua economia relativamente próspera – o que se vê é um processo predatório, irrefletido e vertiginoso de modificação do espaço, em Montevidéu parece haver maior respeito – e nesta altura da conversa, não importa se isto se deve em boa parte à estagnação econômica – para com a conservação de certas localidades essenciais no acúmulo de dimensão histórica, e que, no final das contas, garantem a "alma" de uma cidade.
Assim, há vários exemplos de verdadeiras “entidades urbanas” ainda remanescentes mas que não por isso chegam a aparentar um ar retrô embalsamado (que algum gaiato seria capaz de atribuir à nossa simpática personagem montevideana). Um dos maiores emblemas deste quadro moderno-vintecentista são os cinemas de rua encontráveis em mais de um endereço – muitos deles, quase lotados por indivíduos com aparência credível de espectadores assíduos nestes curiosos templos laicos onde se costumava projetar obras da sétima arte até há pouco, quando a privatização eletrônica e virtual do espaço público acabou por nos relegar `a pusilânime condição de mônadas psíquicas sem qualquer vínculo palpável com seus ambientes sociais.
Diante disso me ocorrem perplexidades em forma de indagação com aspecto de repetitiva ingenuidade: qual a necessidade, hoje em dia, de uma banca de revistas, agências bancárias e de correios, de parques, praças, sebos e livrarias - enfim, daquilo que até quinze anos atrás servia como pretexto para a galvanização das relações de convívio humano - quando tudo parece estar a um toque da mão àqueles que possuem a mínima capacidade de endividamento?
Então, meus seletos amigos, já que não estão disponíveis respostas satisfatórias para o problema da efemeridade criminosa dos diversos símbolos, obras, serviços e ferramentas com os quais de alguma forma, inevitavelmente, ao longo da vida nos afeiçoamos, cidades como Montevidéu irrompem enquanto convite contínuo para admirar um lugar onde os idosos, confiantes, dominam não só as calçadas com suas ágeis bengalas, mas também a maioria dos restaurantes e cafés, exibindo traquejo raramente verificável em intelectos e corpos muito menos provectos.
Retrato vivo de uma sensibilidade urbana ameaçada de extinção, e muito próxima em geografia e em história de Porto Alegre, o possível verdadeiro berço do tango continua incrivelmente disponível em sua estranha distância.

Foto: Luana Emmendoerfer
Ciudad Vieja, Montevideo

Tuesday, December 09, 2008

Fruteira noturna



Fato urbano pra lá de curioso: os bairros centrais de Porto Alegre estão repletos de fruteiras que, desde priscas eras, não fecham jamais.
Foto e idéia para o título da postagem: Antônio Augusto em uma de suas caminhadas de volta para casa.

Monday, November 17, 2008

O supra-sumo da elegância urbana

Tantos recantos repletos de alto valor urbanístico que são simplesmente desconsiderados pelas pessoas de olhos e passos apressados... Cada urbe com um mínimo de alma e história há de possuir os seus. Exemplos, infelizmente, não faltam.
Para ilustrar este quadro surreal vigente, basta dizer que existem cidades inteiras não apenas abandonadas como desclassificadas pelo senso ordinário institucional, o qual determina, a partir de sua míope empáfia, o que seria OBJETIVA E QUANTITATIVAMENTE essa tal de qualidade de vida. Como contra-exemplo, pensemos nas comunidades históricas do sul gaúcho, da região cafeeira paulista e fluminense, interior mineiro, andino, boliviano, a Beatle Liverpool, Montevidéu e a península mexicana de Iucatã... ; enfim, quero dizer que onde aparentemente houver marasmo econômico – não se engane -, ali pode estar o oxigênio tão escasso e valioso em ambientes hoje considerados muito mais “prósperos”.
Assim, teríamos em dias contemporâneos um filtro às avessas que, mancomunado com determinado modo hegemônico de valorizar apenas um tipo zôo-mecânico de consumo e circulação, exclui de sua órbita centrífuga cada indício de vida "não adequada", "improdutiva", "anacrônica", "vagarosa" ou "decadente".
O dizer oculto porém onipresente: "quem não adere à corrente por ela será afogado", vem cooptando muita gente boa com ótimo potencial para pensar e agir de maneira criativa e independente. Motivo mais do que suficiente para angustiar toda pessoa esclarecida, e, ipso facto, incapaz de vislumbrar qualquer farelo benéfico pro futuro da humanidade enquanto esse individualismo cínico e vampiresco se mantiver dominando as nossas mentes.
Há, contudo, muito aquém desta lógica enviesada, outras paisagens prenhes de vida e convivência humana. Mas, por favor, não adianta descobri-las só para dominá-las em projetos de rentabilidade futura. A efervescência humana precisa estar acima do dinheiro para poder existir de verdade.

Friday, November 07, 2008

Contemplar - verbo em extinção

Se me incomodam aqueles esnobes indispostos a passear? Mesmo que menos loucamente apressados, eles sempre existiram, é claro.
No passado, entretanto, era tão-somente mais um comportamento infeliz entre tantos outros possíveis. Agora, a arrogância (hiper) sensível apenas às próprias razões foi alçada à condição de único modus vivendi válido.
O perigo assume as cores dramáticas de uma cruzada bárbara encetada contra aquilo que um dia se entendeu como valores minimamente civilizados.* Muito além, creio eu, de passageiros estados catastróficos de humor deste que de vez em quando vos fala.
Governos estúpidos e venais insistem em não investir em transporte público de razoabilidade passável (ao invés, colocando ainda mais crédito para a compra financiada de carros pelo populacho afluente), nem tampouco em obras que tornem as calçadas passíveis de circulação não opressiva por pessoas as quais - reitere-se o óbvio criminosamente ignorado -, pelo fato de serem pedestres, não por isso teriam menor dignidade - aliás, muito antes pelo contrário - em comparação a motoristas blindados em caminhonetes gigantescas de vidros escuros ou a madames de todas os sexos e idades vidradas em suas esteiras eletrônicas de queimar, em tempo simultâneo, calorias, neurônios e todo vestígio de consideração para com o outro.
Viver sempre foi perigoso - reconheço -, porém agora, pelo jeito, já está a assumir níveis crescentes de heroísmo estratégico para vislumbrar num fio de luz a saída pra tamanha burrice e falta de vergonha na cara.
Em meio ao colossal constrangimento pelo nível ao qual chegamos não posso deixar de lançar a seguinte pergunta: quem merece esta classe média que se vende, a todo instante, por menos que os 30 dinheiros de Judas?
Resistir é a divisa. Mas como fazê-lo, sem parecer cínico, ingênuo ou deslocado e preguiçoso disfarçado (por não aceitar o trabalho escravo imposto por esta realidade madrasta), em épocas anti-utópicas e pós-revolucionárias como o mundo da primeira década do século XXI?
O pior é que problematizar demais talvez já seja dar chances para sempre irrecuperáveis ao inimigo.
*Sei que muita gente hoje em dia prefere evitar este termo repleto de implicações de ambiguidades insanáveis: "civilização"... Do mesmo modo, tenho plena consciência dos riscos refletidos na utilização de um passado supostamente superior como parâmetro de crítica ao tempo presente. Ora, o relevante desta questão, independentemente de querelas entre apocalípticos e integrados, é aquilo que se intui e se reconhece enquanto modelo razoável de convivência - não importando estabelecer, como "prova da viabilidade absoluta" desta pressuposição, o tempo e o local exato em que vivemos ou ao qual nos referimos. As épocas e as modas comportamentais se sucedem e se anulam, contudo certas sensibilidades hão de remanescer, mesmo soterradas, à espera de um outro ciclo menos estéril e ridiculamente pretensioso...

Tuesday, September 09, 2008

Sobre orelhões, ônibus e passarelas

Não importa que me digam que a modernidade enquanto modelo de vida humana caducou. De mais a mais, sempre soubemos que a hiprocrisia e a estupidez não nasceram apenas ontem com o neoliberalismo globalizado ou com o Big Brother e a Internet. Mas importa ainda saber que há beleza em muitas coisas vivas e largamente desprezadas (ou sequer postas em consideração). Por isso, falar no orelhão ou atravessar uma passarela em noites chuvosas não deveriam parecer algo excêntrico e melancólico ao juízo do amigo supostamente atento.
Minha mãe avisa que aproveitará o passe livre para passear de ônibus pelos descaminhos viários porto-alegrenses. Eu, do meu jeito, continuo aguardando maior respeito e cuidado perante os variados lugares e minúsculas - que sejam - coisas públicas. Esnobes idiotas transpõem mares para admirar monumentos arquitetônicos muito semelhantes aos demolidos por eles próprios nas aglomerações urbanas onde infelizmente habitam.
Absurdos à parte, a cidade continua aí para quem tiver pernas dispostas e olhos abertos.

Thursday, September 04, 2008

Resistência

Dizem por aí que o ar anda cada vez mais rarefeito. Respondo incontinente: não há outra saída senão resistir.

Thursday, August 28, 2008

Citação

Pra ouvir falar de cidades de agora e de outros tempos também, acesse www.fotolog.net/aabueno . Na maior parte das vezes, entretanto, nem haverá, decerto, foto de metrópole ou várzea qualquer. Mas o sentimento urbano de mundo com certeza estará ali.

Tuesday, August 05, 2008

Crepúsculos de inverno em Porto Alegre


Como amante das estações bem definidas, muitas vezes me ressinto de um clima genuinamente hibernal aqui em Florianópolis. É claro que a diferença, em números absolutos, não é lá tão grande assim: dependendo do dia e da intensidade da frente polar, uns 5 ou 6 graus celsius. Mas de qualquer maneira, os crepúsculos daqui nunca foram tão belos e demorados como os de lá.
A luz de inverno também não chega a ser evidentemente oblíqua, capaz de provocar aqueles desenhos característicos de sombra das árvores sobre os chãos de parques, praças, ruas e quintais. Assim como, infelizmente, aqui não há um azul-marinho tão rico em matizes quanto nos finais de tardes em que eu voltava do colégio para casa cheio de um sentimento que só aquela paisagem poderia conter.
Foto:Ronaldo Bernardi

Sunday, August 03, 2008

Pasárgada urgentemente

Caminhar pra espantar os demônios e conclamar os anjos;
Andar acompanhado pela conversa agradável e estimulante do amigo;
Sair sozinho pela alameda insólita e arborizada;
Descobrir no meio do caminho aquela casa em ruínas com o jardim abandonado repleto de histórias e de pessoas pra sempre misteriosas e desconhecidas;
Despertar a curiosidade diante de certa escadaria quase escondida no ponto de fuga da paisagem urbana; e, subindo seus degraus vários, avistar uma pequena praça habitada pelo canto dos pássaros e das crianças.

As passagens-ruas de tempos já distantes e simultâneas multidões convidam à memória do homem atordoado e triste pela própria vida que lhe soa alheia.
Ele, entretanto, prossegue e caminha em busca de uma cidade onde os labirintos viários levem a novos sentidos, totalmente outras direções - embarca embora, a cada dia então, para afugentar o diabo em Pasárgada.

Wednesday, July 09, 2008

Passeando pela cidade

Tente caminhar hoje em dia em ruas estreitas dominadas pelos automóveis por todos os seus mínimos lugares: via de asfalto, meio-fio, esquálidas e esburacadas calçadas... Fazer ciclovias pintadas, roubando o já parco espaço destinado às espaçosas máquinas motoras, até pode soar de bom tom, causando-nos a enganosa satisfação perante um poder público cada vez mais indiferente, autoritário e demagógico. Mas antes disso tudo, sempre serei muito mais a favor de caminhos urbanos que simplesmente permitam que alguém se locomova mesmo que estivesse, porventura, de pés descalços.

Monday, June 09, 2008

Uma ode aos pipoqueiros e às suas fantásticas carrocinhas